3 de jun de 2009

Estudantes bolivianos no Brasil

Do site Caros Amigos - Mai.09
Por Felipe Larsen
Quais os problemas na rede educacional de São Paulo? Entre os motivos comumente citados – professores mal pagos e alunos desmotivados –, encontramos questões pontuais.
Há alunos estrangeiros com dificuldade em acompanhar a rotina na sala de aula. E algo que vemos na zona norte de São Paulo, reduto da imigração boliviana.
Mas, se eles estão aqui, falam português corretamente, não? Não.
As escolas da região enfrentam problemas na comunicação entre esses estudantes e os professores. Até mesmo com os colegas de sala.
O conhecimento que os imigrantes têm da língua portuguesa é limitado. Como explicado na reportagem sobre a Feira da Praça Kantuta, eles têm uma rotina de doze horas diárias de trabalho, restando o domingo. Muito pouco para inteira-se e aprender um novo idioma.
Assim, professores da rede pública enfrentam não só problemas com alunos brasileiros, mas também na comunicação com jovens receosos em se expressar na língua portuguesa.
É o caso de Lucinete Gonzáles e Beimar Choquecondur, ambos de 11 anos, da 5ª série na E.E. Gonçalves Dias, no bairro da Parada Inglesa.
Beimar, que estudava no bairro da Casa Verde, lembra que na sua antiga escola, ouvia gozações de outros alunos. “Tenho medo que os outros se aproveitem dos bolivianos. Na outra escola todos (os) odiavam. Faziam guerra”, se recorda Beimar.
O garoto se sente envergonhado por não entender tudo que é dito pelos professores. Ele confirma que isso acontece com outros jovens. “(eles) têm muita dificuldade. Não entendem algumas coisas que brasileiros falam”, lamenta.
A educação na Bolívia entra no papo. Nas grandes áreas camponesas o acesso dos jovens é difícil. Além da distância, há o lado financeiro. Beimar diz que “as pessoas pagam para estudar”. Pedi para ele me explicar. “Pagar” é arcar com todos os materiais necessários em sala. Detalhe: o valor dos materiais vai aumentando ano a ano. Já custoso para nós, podemos imaginar o quão terrível é para a população humilde.
A visão do mestre
Professora de geografia na sala de Beimar e Lucinete, Magda Gomis fala que em outras escolas há até 12 alunos por turma.
De acordo com ela, o número de bolivianos aumenta há pelo menos oito anos. “Não só na escola que leciono, mas também em outras da região. Tenho colegas que comentam sobre esses alunos”.
Mas como lidar com a comunicação em outra língua? Não há, entre os mestres, nenhum “método” específico. Para os professores, é necessário encontrar meios para o jovem compreender o que é passado, além de lidar com as próprias dificuldades. “Para esse aluno tudo é muito diferente, desde a questão da disciplina, da aprendizagem e dos novos colegas que têm por hábito discriminá-los”, relata Magda.
Ela explica que capacitar os professores na língua espanhola ajudaria, mas teme que poderia dificultar o aprendizado do aluno na língua portuguesa.
Mesmo a hipótese de aprender outro idioma é distante, pois a realidade dos professores do nível fundamental mostra que lhes falta tempo dinheiro.

Mas como avaliar um “erro” cometido por um aluno que não tem o português como língua materna? “Eu não considero erro se o aluno não consegue se expressar ou escrever corretamente. Minha avaliação é participativa, acredito no conhecimento adquirido desde que (ele) mostre interesse e dedicação. Só com isso ele vai aprender o português. E pode ter certeza: os bolivianos são muito interessados, até mais do que brasileiros”, garante Magda.

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