18 de jul de 2009

A Ave Poesia do Patativa do Assaré e Garapa

Garapa

Para quem deseja aprender mais sobre a fome, a profundidade do problema da pobreza absoluta, o sentimento do povo sobre as limitações à sua liberdade expresso através de comoventes e belos versos, recomendo que assista a dois filmes: A Ave Poesia do Patativa de Assaré, de Rosemberg Cariry e Garapa, de José Padilha.

O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha sete anos quando partiu com seus irmãos e sua mãe de Caetés, Garunhuns, no interior de Pernambuco, em busca do seu pai, em Vicente de Carvalho, no Guarujá, São Paulo. Foram 13 dias num caminhão pau-de-arara. Nessa época o sertanejo Luiz Gonzaga, certo dia, ouviu no rádio, no interior da Paraíba, uma canção que achou muito bonita. Resolveu ir até Assaré, no Ceará, conversar com seu autor, Patativa:

“Você quer me vender essa música?”
“Meu mundo é a minha poesia, minha família e eu não vendo direito autoral por preço nenhum. Mas se você quiser cantá-la vou ficar muito honrado”.
A partir daí Luiz Gonzaga passou a cantar Triste Partida que o Presidente Lula considera uma das mais belas do cancioneiro popular brasileiro e que diz versos como:

“Eu vendo meu burro
Meu jegue, meu cavalo.
Nós vamos a São Paulo
Viver ou morrer

Pois logo aparece
Feliz fazendeiro
Por pouco dinheiro
Lhe compra o que tem

Meu Deus, meu Deus.
Faz pena o nortista,
Tão forte e tão bravo,
Viver como escravo,
No norte ou no sul”.

Será que, meio século depois, com tanto progresso no Brasil, o grau de liberdade dos seres humanos é muito maior? As músicas cantadas pelos jovens das grandes metrópoles brasileiras, a exemplo do rap ou do hip-hop como O Homem na Estrada, de Mano Brown e dos Racionais, indica que para muitos é ainda muito limitado.

O filme Garapa, de José Padilha, mostra uma realidade que infelizmente ainda perdura em nosso país: o quotidiano de três famílias pobres no Ceará, uma em Fortaleza, outra numa cidade média e outra na área rural. Todas em sua batalha para conseguir como se alimentar diante de extrema escassez.

“A fome é um ronco no estômago, uma correria para esquentar o leite que resta para três crianças que choram, uma casa sem móveis, é uma roupa puída, um chinelo gasto, uma parede para pintar, são crianças sem escola”, como diz Padilha que, em 2005, passou um mês filmando a vida destas famílias. Quando a criança acorda na rede, a mãe lhe traz a mamadeira que, em vez de leite, tem garapa quente, ou simplesmente, água com açúcar.

Depois de assistir o filme temos que concordar com Josué de Castro, o autor de Geografia da Fome e de Geografia da Fome, dos anos 40 e 50. Erradicar a fome e a pobreza absoluta está inteiramente em nossas mãos. Precisamos nos empenhar muito mais para conseguir.

por Eduardo Suplicy - 01/06/2009

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