20 de abr de 2011

Educação na Blogosfera

imageDo Blog Politikei - 18.04.2011

Tive a honra de estar encarregado da apresentação do tema na Oficina Educação na Blogosfera, no 3º dia do I Encontro de Blogueiros Progressistas SP. Este artigo pretende resgatar um pouco do que foi o debate ocorrido na Assembleia Legislativa de São Paulo e até mesmo aprofundar pontos que tocamos apenas superficialmente na ocasião.

Iniciei a apresentação tratando dos dois aspectos da educação enquanto processo: o reprodutor e o transformador. À educação cabe tanto reproduzir quanto transformar saberes e cultura da sociedade. Por isso mesmo, a educação é afetada e tem o papel de transformar a sociedade. Hoje afetam inexoravelmente a educação como mudança recente nas relações sociais a presença preponderante na juventude do uso de redes sociais e blogs.

Dentre os participantes, parte era de blogueiros, outra de educadores, outros eram professores blogueiros, e por fim, alguns não eram nem uma coisa, nem outra, mas interessados nos dois temas. Por isso mesmo, foi importante apresentar dois vídeos que explicam com muita simplicidade o que são redes sociais e blogs. Tal simplicidade chega mesmo a reduzir a dimensão desses fenômenos, como observou Luana Bonone, jornalista do Portal Vermelho. Mas como sugeriu a participante da oficina, a utilização dos vídeos que disponibilizo abaixo tem seu aspecto didático auxiliando a compreensão dos que não vivem tais revoluções de costumes.
Redes Sociais em Linguagem Simples
Blog em Linguagem Simples
Desses vídeos temos duas lições principais. A primeira é que as redes sociais sempre existiram. Mas a tecnologia ampliou as possibilidades e oportunidades, profissionais e pessoais, dessas relações na medida em que tornam visíveis as pessoas que antes se distanciavam de nós por serem amigos dos amigos dos amigos…

A segunda lição é que os blogs rompem com paradigmas das comunicações, antes monopolizadas por jornalistas e editores respondendo a grupos e empresas. A informação e a comunicação passaram a ter um caráter pessoal e interativo na relação com a notícia, possível com os blogs que tornaram qualquer um produtor de informação.

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Essas novas formas de comunicação refletem a aceleração com que a tecnologia da informação se desenvolveu nas últimas décadas. Uma aceleração que afetou a educação porque é uma realidade que invade as salas de aula e seus alunos. E por acelerar, pega o professor de surpresa, inseguro por não possuir a mesma naturalidade com que alunos twitam ou postam. É o que mostrou a pesquisa noticiada pelo JT na semana que passou.

A pesquisadora da UNICAMP, Cacilda E. A. Alvarenga, identificou que 85% dos docentes pesquisados em 253 de 27 Escolas Estaduais paulistas de Campinas não sabem usar o computador e seus recursos como ferramenta pedagógica. Eles apresentaram como dificuldades não saberem usar software simples como o Power Point ou terem problemas para imagenavegar na internet. Os professores destacaram como causas: a deficiência na formação profissional, a falta de tempo, o pouco incentivo para se aprimorarem e a infraestrutura deficiente no local de trabalho.

Segundo a reportagem, para o Secretário Estadual de Educação, João Cardoso Palma Filho, “há muita resistência dos docentes com a tecnologia”. Mais uma vez a política educacional do Estado de SP utiliza a estratégia de culpabilização dos professores. É claro que há resistências de quem chega a se assustar com as transformações proporcionadas pela tecnologia. Mas isso não é desculpa para a omissão do Estado. A pesquisadora conclui que os resultados da amostra “são semelhantes no resto do País” e que “a falta de afinidade dos professores públicos com a tecnologia é comum”. Acrescenta que para 73% dos entrevistados a infraestrutura de informática disponível nas escolas é insuficiente e que “isso acaba desmotivando o professor”.

Como consequência desse distanciamento entre professores e a tecnologia disponível na mão de seus alunos, lidar com a realidade que se apresenta se torna obstáculo ao aspecto reprodutor da escola que sequer acompanhou a mudança na sociedade. Ainda mais difícil se torna a meta de transformar a realidade presente que lhe escapa.

Como apresentei no Encontro, essa realidade é perceptível na própria experiência que tenho com esse blog que se dedica em parte para tal público, professores da rede municipal, bem como outros servidores municipais. Constantemente percebo a dificuldade que muitos professores (como outros servidores) encontram para entender como buscar notícias em um blog. É uma realidade ainda distante. Não há hábitos de busca pelas informações em blogs ou na internet de uma forma geral. Para incentivar que a maioria busque a informação tenho uma rotina permanente de boletins por e-mail. Isso para os que acessam seus correios eletrônicos, pois ainda há muitos profissionais que possuem computador e banda larga em casa por conta de filhos ou netos, mas não possuem uma conta de e-mail e não sabem acessar um site. Outros ainda possuem conta, mas acessam com baixa regularidade. Tais características de parte do professorado e mesmo de outros trabalhadores dificultam imensamente as chances de manter o funcionalismo melhor informado.

imageComo acontece com a maioria da população brasileira, também professores e servidores são informados massivamente, e por isso, formados, por uma mídia conservadora, atrelada a um Brasil atrasado, preconceituoso, voltado para os interesses de setores privilegiados. A mesma mídia que constantemente ataca os professores e os culpabiliza pelos problemas da educação, para poupar governos liberais que defendem interesses do mercado, é a sua fonte principal de informação. Uma mídia que ataca a educação pública e defende a privada, como denunciou Maria Izabel Azevedo Noronha, Presidenta da APEOESP, em matéria do Viomundo publicada aqui sobre a opinião do economista Gustavo Iochpe na revista Veja de 09/04/11. O economista explora seu ponto de vista mercadológico e oferece mais “pérolas” para colecionarmos dentre as ideias sobre educação advindas de pessoas que nunca se importaram com educação. Maria Izabel elencou algumas contribuições de Iochpe para que a educação pública não avance:

•propõe que as representações sindicais do magistério e demais profissionais seja ignoradas nas discussões sobre educação;

• “acusa” os sindicatos de lutarem pelo bem-estar de seus associados;
• afirma que o Brasil investe mais que o suficiente em educação;
• para ele, não há relação nenhuma entre o valor dos salários pagos aos professores e a qualidade do ensino;
• vem defendendo a ideia de que o ensino infantil não tem importância nenhuma para o desenvolvimento da educação e do país.

imageComo salientou Maria Izabel, todas as críticas e restrições do economista são voltadas ao ensino público, como se a educação privada por si garantisse qualidade. Para a Presidenta da APEOESP, há uma “tentativa de demonizar os movimentos e sindicatos de professores, estudantes e outros segmentos sociais que lutam pela melhoria da educação pública e pela valorização de seus profissionais”.

É um “movimento contra a democracia e contra o livre direito de organização e expressão”.

Diante de tanto poder concentrado em uma mídia que funciona como partido conservador, disposto a tudo para combater reformas democráticas, não é pouca a dificuldade encontrada no movimento sindical. A realidade com que se deparam os sindicatos é de uma boa parcela dos professores e trabalhadores em geral, desinformados, despolitizados e desmobilizados. Essa conjectura facilita os constantes ataques que vivemos contra o funcionalismo, tanto pelo poder público, quanto pela mídia, bem como torna boa parte do conjunto dos servidores formada por concepções conservadoras.

É assim que São Paulo tem um governo que abusa com reajustes anuais de 0,01%, pratica descaradamente a política de gratificações para excluir aposentados e desmonta o serviço público com opção clara por terceirizações, Organizações Socias e convênios. Tudo isso chancelado por uma imprensa que ajuda a confundir a opinião pública sobre o que é boa gestão, e para a qual, serviço público é um problema em si e a culpa é dos servidores. Tais concepções conservadoras passaram a ser introjetadas por muitos servidores que acabaram sendo apoiadores ou simpatizantes das políticas de seu próprio algoz. Mas que possibilidade temos de resistir, enfrentar e reverter (ou converter) a situação presente? Vejo na blogosfera e nas redes sociais grandes ferramentas e instrumentos políticos ou de politização. Não são a solução em si, mas não é possível pensar em avanços desconsiderando sua presença na sociedade e as possibilidades do uso das novas tecnologias, pois estas permitem cada vez mais o acesso a informações e perspectivas como contraponto à mídia tradicional, como tem demonstrado a organização de blogueiros progressistas.

A Blogosfera tornou-se excelente canal de comunicação por permitir o contraditório (sem o controle editorial) essencial para a perspectiva de se promover a politização. As redes sociais por sua vez têm demonstrado serem capazes de organizar grandes mobilizações pelo mundo. Que fique claro que se tratam de ferramentas, não substituindo a ação nas ruas, mas com potenciais para comunicar e informar nunca vistos antes. Outra condição que as ferramentas tecnológicas atuais permitem às pessoas é de se tornarem produtoras de informação e comunicadoras sociais, rompendo o movimento unidirecional da mídia antiga.

Assim, apropriar-se de tais ferramentas e difundir seu uso deve ser o desafio que sindicatos e movimentos sociais devem tomar para si, e que os Blogueiros Progressistas podem incorporar como bandeira, pensando em uma educação transformadora da sociedade. Devemos lutar para que sindicatos, governos e faculdades de pedagogia passem a voltar os cursos de formação ou capacitação para as novas tecnologias permitindo melhor uso da internet para busca, pesquisa e informação, utilização de e-mails para transmissão rápida de informações e o ingresso e exploração de redes sociais e blogs para ampliar a capacidade de comunicação.

Para que possamos avançar em tempos atuais, temos de convencer os sindicatos da necessidade de renovar suas estratégias de comunicação, garantindo informações atualizadas nos sites, com boletins eletrônicos e ampliação da interatividade com os trabalhadores em fóruns temáticos, enquetes de opinião, espaço para comentários, canais para bate-papos e publicação de textos, imagens e vídeos dos filiados. Também precisam estar presentes nas redes sociais como twitter, facebook e orkut.

Os blogueiros progressistas devem propor campanhas envolvendo os sindicatos nas lutas pela democratização dos meios de comunicação. Não podem deixar de ser bandeira das entidades sindicais a luta pelo marco regulatório dos meios de comunicação, pelo Plano Nacional de Banda Larga, já que o acesso à informação de forma democrática é a grande arma contra a velha mídia que criminaliza movimentos sociais. A reforma política, tema da blogosfera progressista, também deve ser alvo de debate entre os trabalhadores, pois trata-se de rever a forma de representação política dos segmentos sociais que hoje vêem seus conflitos resolvidos pelo viés das questões econômicas.

Diante das proposições que expus ao debate e a discussão desenvolvida no encontro, os participantes concluíram propostas que devem concorrer para a composição do documento final do I Encontro de Blogueiros Progressistas SP que será concluído em breve e deve ser apresentado no II Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas que acontecerá em junho, em Brasília. São elas:
  • Defender que a formação inicial e continuada dos professores inclua a capacitação para a utilização das novas ferramentas tecnológicas, inclusive redes sociais e blogs.
  • Propor aos sindicatos apoio a campanhas por reformas democráticas e pela democratização dos meios de comunicação incluindo a promoção de debates e divulgação de temas como: marco regulatório das comunicações, PNBL e reforma política.
  • Apoiar o Projeto de Lei n°: 5921/01 que proíbe a publicidade dirigida à criança e regulamenta publicidade dirigida a adolescentes
  • Promover o debate sobre a criação de uma rede de blogs que façam um contraponto ao projeto de poder pedagógico da mídia hegemônica, proporcionando no âmbito da educação a possibilidade de resistência
  • Promover nos blogs linguagens adequadas para acessar e aproximar seus públicos.
  • Instigar a participação e contribuição dos professores para o debate de uma educação libertadora e emancipatória.
  • Promover o debate sobre a educação privada, identificada pela mídia como de qualidade, mas que, apesar dos recursos disponíveis são incapazes de formar cidadãos.
  • Criar espaços de resposta para os movimentos sociais diante da sofisticação na forma como a mídia criminaliza, atribuindo crimes de corrupção sem julgamento como já ocorreu com o MST, CONAM e UNE.
  • Apoiar e propor projetos públicos de educomunicação que estimulem alunos e professores na utilização de ferramentas de comunicação como rádio, blogs e redes sociais como ferramentas de aprendizagem.
  • Apoiar e desenvolver projetos que estimulem alunos e professores na utilização de ferramentas de comunicação como rádio, blogs e redes sociais como ferramentas que permitam fazer novas leituras da realidade.
  • Elaborar campanhas para conscientizar as comunidades educativas quanto à importância da comunicação.
Encerrei a apresentação com o trecho inicial do vídeo “Levante sua voz” produzido pelo Intervozes que trata do direito (hoje negado no Brasil) à comunicação. Por questão de tempo não apresentei o vídeo na íntegra e por uma feliz e incrível coincidência, a oficina seguinte sobre Comunicação Comunitária com a rapaziada da rádio Heliópolis iniciou a apresentação justamente com o mesmo vídeo que aqui, com prazer, posso divulgar mais uma vez. Se minhas palavras não foram suficientes para aqueles mais distantes desse tema entenderem o que significa esse monopólio das comunicações e o efeito sobre a cultura e a liberdade do povo brasileiro, duvido qualquer reação de indiferença, após assisti-lo. Simplesmente fantástico!

Vídeo produzido pelo Intervozes Coletivo Brasil de Comunicação Social com o apoio da Fundação Friedrich Ebert Stiftung remonta o curta ILHA DAS FLORES de Jorge Furtado com a temática do direito à comunicação. A obra faz um retrato da concentração dos meios de comunicação existente no Brasil.
Roteiro, direção e edição: Pedro Ekman
Produção executiva e produção de elenco: Daniele Ricieri
Direção de Fotografia e câmera: Thomas Miguez
Direção de Arte: Anna Luiza Marques
Produção de Locação: Diogo Moyses
Produção de Arte: Bia Barbosa
Pesquisa de imagens: Miriam Duenhas
Pesquisa de vídeos: Natália Rodrigues
Animações: Pedro Ekman
Voz: José Rubens Chachá

Um comentário:

  1. Olá achei muito interessante esse texto. Tenho um blog de educação: omelhorblogmg.blogspot.com. Gostaria de fazer parceria.

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