10 de out de 2013

30 x Bienal: Artistas fundadores e participantes de várias exposições da Bienal foram injustiçados na comemoração

Pavilhão Ciccillo Matarazzo, projeto de Oscar Niemeyer. Foto: José Moscardi
Artistas indignados, que participaram de várias exposições e fundaram a Bienal em 1951, criaram movimentos da arte, foram vanguarda, reinventaram, ganharam prêmios internacionalmente, consagrados pela mídia, concretizaram mudanças fundamentais do conceito contemporâneo na sociedade e na história em mais de meio século, foram excluídos da comemoração 30X Bienal.
A arte tem seus percalços e a injustiça neste segmento é uma exposição ainda invisível na sociedade. “O que deveria ter sido uma escolha respeitando a linha do tempo, fazendo jus à história, transformou-se num recorte com uma visão pessoal e tendenciosa de um só curador”, desabafa Kátia, filha de Ianelli (1922 – 2009).

Dentre os expoentes consagrados e familiares, estes pertencentes a artistas que deixaram vivas suas obras, reclamam o desrespeito à arte. Arcanjo Ianelli marcou a fase do figurativo ao abstrato. Em seu trabalho como pintor, escultor, ilustrador e desenhista brasileiro, que foi lembrado pelos seus familiares, participou de nove, com três salas especiais nas bienais. Concomitante às mostras de São Paulo, na mesma época, foi detentor dos primeiros prêmios da Bienal do México e de Cuenca. Ianelli, como era conhecido,  integrou o movimento da arte no Grupo Guanabara.

Outro destaque a este grupo foi o artista Manabu Mabe (1924 – 1997), pintor, desenhista e tapeceiro japonês. Naturalizado brasileiro, o imigrante Mabe teve uma infância pobre e começou suas atividades em seu ateliê adaptado no meio da lavoura do café na cidade de Lins interior de São Paulo, ele foi um pioneiro do abstracionismo no Brasil. Sua marca revela vivência nos campos com naturezas-mortas e paisagens. Obteve um grande êxito, em 1959, das várias exposições consagradas pelo público ao longo de sua vida, quando ganhou o prêmio como melhor pintor nacional da 5a Bienal de São Paulo e o de destaque internacional na Bienal de Paris.

Ciccilo (1898 - 1977), um dos principais responsáveis pela fundação e realização da Bienal de São Paulo. É lembrado como um ícone pela primeira edição, em 1951, na área do recém-demolido Trianon, na Avenida Paulista. Naquela época, outros eventos foram integrados à mostra como a Exposição Internacional de Arquitetura e o Festival Internacional de Cinema.

Ciccillo Matarazzo presidiu a Comissão do IV Centenário da cidade. O local escolhido para sediar a maior parte dos eventos foi o Ibirapuera, onde se planejava construir um grande parque, e para projetar o conjunto de edificações, em que na ocasião foi convidado o arquiteto Oscar Niemeyer (1907 - 2012).

Filha de Ianelli, Kátia se une a artistas para relembrar a história de seu pai, e sua importância no contexto tão aclamado pela crítica no passado. Ela diz que a geração de artistas, esquecida nesta comemoração 30 X Bienal, “fez nascer todo esse movimento naquele tempo, pois era rico e construtivo. Que explicação há para essas lacunas, essa omissão? As escolhas seguiram um critério duvidoso de honestidade”, indaga Kátia. 

Paulo Venâncio Filho único curador da Bienal, segundo artistas e familiares, não respeitou a linha do tempo, nem fez jus à história, transformou a exposição 30X Bienal num recorte com uma visão pessoal e tendenciosa de um só curador. Ainda uma pergunta. Qual é o conceito para releitura de mais de seis décadas de mudanças na arte brasileira?
Caciporé, um dos artistas excluídos da comemoração 30X Bienal, é o criador da escultura em aço “A coisa”. A obra é de exposição permanente no acervo do MAM  no Parque Ibirapuera, coincidentemente do lado externo da Bienal. Imagem: ARTEplex

Caciporé Torres (1935), de Araçatuba, escultor, desenhista e professor. Artista excluído da mostra. Viaja para a Europa através de bolsa de estudos que recebe na 1ª Bienal Internacional de São Paulo, de 1951, e durante dois anos frequenta os ateliês de escultura de Marino Marini (1901 - 1980) e Alexander Calder (1898 - 1976). Retorna ao Brasil em 1953, participa de exposições, e posteriormente, regressa à Europa.

Em 1954, estuda história da arte na Sorbonne, Paris, e trabalha em ateliê durante 4 anos, período em que desenvolve obra de caráter abstracionista. Passa a construir formas maciças orgânicas e geométricas (veja a foto acima), utilizando peças metálicas de aparência industrial, como o aço, bronze e ferro. Muitas dessas esculturas são feitas em grandes dimensões e integram museus e espaços públicos de diversas cidades, como as obras na Praça da Sé, metrô Santa Cecília, e painel escultórico em Miami, Estados Unidos.

Entre 1961 e 1971, leciona escultura na Fundação Armando Álvares Penteado - Faap e, a partir de 1971, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, ambas em São Paulo. Em 1970, é eleito presidente da Associação Internacional de Artes Plásticas/Unesco, e, em 1980 e 1982, melhor escultor brasileiro pela Associação Paulista de Críticos de Artes - APCA.

No jornal do Estadão, leia aqui, a jornalista Maria Hirszman destaca o ponto de vista do curador em seu artigo: para buscar um maior equilíbrio, o crítico criou para si mesmo algumas regras de conduta.

Como poderia ser evidente, todo esforço de síntese da história é excludente em uma opinião subjetiva de curador que defende meios ilícitos de galeristas. Reviver a história da arte sem a concretude de sua existência?
Na mesma ocasião celebridades se unem aos artistas indignados.  “ Nossa solidariedade ao Estadão, que fez justiça ao noticiar, na mesma edição em que foi capa a mostra 30 x Bienal, o boicote vergonhoso à artista plástica Maria Bonomi, internacionalmente reconhecida e uma das fundadoras da Bienal de São Paulo. Lamentável". Defende Aracy Balabanian e Denise Saraceni.

Cartaz da 1ª Bienal Internacional de São Paulo (1951)

Maria Bonomi enfatiza o reviver da história da arte. A artista que nasceu na Itália e chegou ao Brasil ainda criança, em 1946, definiu o país como o lugar de "todas as invenções". Bonomi inaugurou com Ciccilo a Bienal em 1951. Fundadora e participante de 12 Bienais lembrou-se da época da ditadura que viveu, sem ser aceita oficialmente pelo mercado da arte de seu país. Enquanto muitos artistas fizeram carreira sustentados pela ditadura, ela preferiu trabalhar na antiga Iugoslávia, na Eslovênia e em Praga.

No entanto, nunca deixou de viver no Brasil. "A ditadura era o momento de ficar, não de sair", comentou. Entre suas obras, a artista destacou uma primeira colaboração com o arquiteto Óscar Niemeyer, um projeto sobre os maus-tratos da população indígena brasileira pelos portugueses durante a colonização. 55 anos de carreira artística, com gravuras e esculturas em bronze, alumínio e latão, matrizes e instrumentos de trabalho. Ela recebeu em 1967 um prêmio na Bienal de Paris.

Maria Bonomi foi um exemplo para as artes e na política. Durante a ditadura militar, a Bienal de São Paulo enfrentou o desconforto do poder político na época. A Fundação Bienal manteve suas relações com o Estado, sustentando regularmente os eventos a cada dois anos, e os artistas passam a procurar formas para contestar a situação. 

Conforme as formalidades já estabelecidas nas edições anteriores, autoridades políticas estavam presentes na Bienal de 1965. Castelo Branco, devidamente fardado, é surpreendido com uma carta, entregue por Maria Bonomi e Sergio Camargo, pedindo a revogação da prisão de intelectuais, entre eles Mário Schenberg. Iberê Camargo contesta a Fundação Bienal, “que, na verdade, vive das subvenções dos poderes públicos federal, estadual e municipal”.

Como já foi pesquisado e evidenciado por historiadores, a preparação do golpe militar no Brasil teve o apoio de elites brasileiras, sobretudo da burguesia econômica e industrial. Esta imposição da sociedade afastou a arte do símbolo da horizontalidade, prestigiando aqueles que detinham o poder. Contudo, a arte passou a fazer parte de um pequeno grupo, de uma elite interessada apenas no mercado industrial.

A maior injustiça que ocorre nos meios artísticos: expositores do Parque Trianon não conseguem incentivos fiscais e culturais. Enquanto as mostras de arte com artistas consagrados, e que não precisam de recursos, conseguem captar milhões, galeristas que possuem interesses financeiros nas artes conseguem todos os recursos públicos e que serviriam para o coletivo, em detrimento de quem precisa, como os aquarelistas da Praça da República.


São várias questões nesta balança das artes, entre marchand, galeristas e artistas de catálogo, que conseguem qualquer vitrine, e os que passam a vida toda sem nunca ter um espaço para expor seus trabalhos, muitos têm talentos expressivos. Qual o julgamento que se faz quanto a estética da arte, se a reverência pelas artes envolve apenas o poder? As expressões da arte estão por todos os lados, podemos ver os artistas de rua, ou em inglês,street art. Estes são os mais marginalizados. 

Celebrar uma época da história da arte, de várias exposições, ao longo dos 60 anos que atravessaram dois séculos na sociedade e foram contemplados em 30 bienais, é duvidoso se questionar uma comemoração quando exclui personalidades que fizeram parte desta história. A questão que implica nestes tempos, a arte poderia ter sofrido com a influência destas elites no poder, do conturbado histórico político que as artes enfrentaram no Brasil? Hoje a resposta para justificar a centralização de um único curador que defende os interesses de galeristas e exclui a passagem da história de artistas renomados.  

Maria Bonomi, que fez nascer todo esse movimento, observa uma desfiguração dos tempos, pelo subjetivismo, pelo ego, a dominação do dinheiro ou valor da arte. “A história foi para o lixo”, lamenta Bonomi.

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