22 de ago de 2009

PSDB: entreguismo militante (2)

Altamiro Borges - Adital - 14.06.05

Adital -
Iniciada a guerra sucessória, sob o falso invólucro do combate à corrupção, torna-se urgente desmascarar os intentos do bloco liberal-conservador desalojado do poder em 2002 e que, agora, parte para a revanche de maneira sórdida e cínica. O acompanhamento de seus porta-vozes na mídia e a leitura de seus veículos de difusão ajudam a decifrar os objetivos futuros do PSDB-PFL, esse condomínio das elites "modernas" e atrasadas a serviço do capital financeiro. Na sua cruzada contra o governo Lula, ele já elegeu seus alvos. Um dos principais é a política externa desenvolvida hoje pelo Itamaraty. Para os tucanos, ativos militantes dos interesses imperialistas, ela seria "retrógrada", "terceiro-mundista" e de "confronto" com os EUA.

A última edição da revista Primeira Leitura, o panfleto de Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-ministro das Comunicações, ex-presidente do BNDES e o curinga de FHC no criminoso processo de privatização das estatais, revela todo ódio deste bloco entreguista contra a política externa liderada pelo ministro Celso Amorim. Ela critica os entraves à Área de Livre Comércio das Américas (Alca); condena os "flertes mais do que explícitos com ditaduras", referindo-se a Hugo Chávez; ridiculariza as medidas para diversificar as relações internacionais - a "estratégia Sul-Sul, que encanta o presidente, não encontra ressonância". Só falta propor que o Brasil aceite, de joelhos, a tutela do imperador Bush e a sua anexação como colônia.

Reinaldo Azevedo, raivoso editor desse panfleto tucano, é incisivo: "Desde os primeiros movimentos da diplomacia caeté do ministro Celso Amorim, Primeira Leitura aponta os descaminhos do Itamaraty... Enquanto países emergentes se movem na velocidade de um raio, o Brasil o que faz é ajeitar o seu balaio de provincianismo, atraso ideológico e pretensão de escravo... Daí essa besteira das relações Sul-Sul em oposição às supostas imposições do Império do Norte". Após atacar o "meio ditador" Chávez, as Farc e Cuba, ele esbraveja: "Lula e Amorim querem chegar ao Conselho de Segurança da ONU para coonestar ditaduras". Haja subserviência e arrogância a serviço das reais - e não supostas - imposições do Império!

Já outro panfleto tucano, Mídia sem Máscara, desanca a cúpula árabe-sul-americana recém-ocorrida. Este inédito feito da diplomacia brasileira teria sido "um fracasso", porque "deixaram de comparecer os países mais alinhados com os EUA" e porque serviu de "endosso ao terrorismo palestino... Saíram reforçados o terrorismo e o antiamericanismo, razão por que Hugo Chávez, o Maluco de Caracas, pode comemorar". Saudoso dos tempos servis de FHC, ela ataca Lula porque "declarou que a Alca estava fora da agenda, chancelou as credenciais democráticas do companheiro Chávez e flerta abertamente com o terrorismo". É muita maluquice reacionária, mas revela os verdadeiros propósitos do bloco PSDB-PFL!

Excesso de servilismo

No mesmo diapasão, embora menos hidrófobo por razões de ofício, o diplomata Celso Lafer, ex-ministro de Collor de Mello e FHC, também saiu do ostracismo para criticar a atual política do Itamaraty. Para ele, todas as recentes vitórias do Brasil nos fóruns mundiais seriam um "legado" da gestão tucana. "Deles se vale, com menos competência e sabedoria, o atual governo na construção de sua presença internacional". Na avaliação desse tucano "collorido" de alta plumagem, a orientação em curso pecaria pelo excesso de retórica, "direcionada para dar satisfação ideológica interna". Ele realmente deve entender de exageros. Afinal, nas suas passagens pelo Ministério de Relações Exteriores ele pecou pelo excesso de servilismo.

O novo livro de Moniz Bandeira, "As relações perigosas: Brasil-Estados Unidos", revela bem o "legado" de FHC nessa área estratégica e o execrável papel do seu ministro Lafer. Entre outras cenas deprimentes, ele foi o responsável pela exoneração do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães do Instituto de Políticas de Relações Internacionais (IPRI), por este ter tido a coragem de criticar os efeitos nocivos da Alca; ele também foi cúmplice da pressão dos EUA contra a permanência do embaixador José Maurício Bustani no cargo de diretor-geral da Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ), numa manobra de preparação para a invasão do Iraque; e ainda deu declarações favoráveis à política belicista dos EUA.

Num episódio que marca o que foi a política externa do governo FHC, Bandeira relata: "Em 31 de janeiro de 2002, Celso Lafer, ministro de Relações Exteriores, sujeitou-se a tirar os sapatos e ficar descalço, a fim de ser revistado por seguranças do aeroporto, ao desembarcar em Miami. Esse desaire, ele novamente aceitou, antes de tomar o avião para Washington, e mais uma vez desrespeitou a si próprio e desonrou não apenas o cargo de ministro, como também o governo ao qual servia. E, ao embarcar para Nova York, voltou a tirar os sapatos, submetendo-se, pela terceira vez, ao mesmo tratamento humilhante".

Bem distinta passou a ser a postura do governo Lula. Um artigo do jornal O Globo, intitulado "Uma pedra no sapato dos países ricos", relatou em setembro de 2003: "Há tempos (Amorim) avisou à embaixadora dos EUA no Brasil que não há força no mundo capaz de fazê-lo tirar os sapatos durante a revista da segurança dos aeroportos americanos - diferentemente do antecessor que passou pelo constrangimento. ‘Vou preso, mas não tiro o sapato’, diz Amorim". A mesma conduta mais altiva levou o novo governo a nomear Samuel Pinheiro, o embaixador punido por FHC por denunciar a Alca, a ser secretário-executivo do Ministério de Relações Exteriores; a nomear Bustani para uma importante embaixada; a condenar a invasão do Iraque; a colocar uma série de obstáculos a Alca; a retomar e reforçar o Mercosul.

É essa ação externa, que hoje adquire caráter estratégico num mundo submetido à globalização neoliberal, que irrita os tucanos. É ela que ajuda a entender a ofensiva do bloco liberal-conservador contra o governo Lula. Para o sociólogo Emir Sader, "o ex-presidente FHC deveria se calar, especialmente quando se trata de política externa. Para encontrar um governo tão subserviente aos EUA será necessário retroceder até os tempos do ditador Castelo Branco, quando o ministro de Relações Exteriores Juracy Magalhães expressou a sua frase lapidar: ‘O que é bom para os EUA, é bom para o Brasil’... Ao longo dos dois mandatos, FHC levou o governo brasileiro a apoiar em todos os planos - econômico, político, militar - os EUA".

Complô Internacional

Iniciada a guerra sucessória, o PSDB inclusive já articula alianças internacionais com os maiores inimigos da política externa em curso. Renegando seu passado de exílio no Chile, FHC fez recentemente rasgados elogios ao ex-secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, um dos mentores do golpe que derrubou e assassinou o presidente socialista Salvador Allende. Numa palestra em Washington, disponível no site do seu instituto (IFHC), ele saudou Kissinger como "velho amigo", "uma dessas raras espécies de homens que podem traduzir pensamento estratégico em políticas públicas e medidas concretas de modo exitoso".

É verdade que o entusiasmo de FHC com a ação imperialista dos EUA não é recente. Ele já havia tentado homenagear Kissinger em fevereiro de 2002, concedendo-lhe a medalha da Ordem Nacional Cruzeiro do Sul. A festança só não vingou porque lideranças políticas e sociais divulgaram um abaixo-assinado contra a infame visita e convocaram ato de protesto. Temendo a repetição das manifestações ocorridas em outros países latino-americanos, o todo-poderoso estrategista ianque preferiu não comparecer. O recente e servil aceno de FHC, porém, revela o esforço para reativar essa antiga aliança com vistas à sucessão de 2006.

Não é para menos que FHC, Alckmin e outros tucanos têm realizado constantes visitas aos EUA. O ex-presidente, inclusive, lidera um grupo, sediado em Washington, incumbido de acompanhar a evolução da conjuntura na América Latina. Segundo reportagem do Financial Times (25/02/05), esse grupo - também composto pela ex-representante comercial dos EUA, Carla Hills, elaborou um relatório recomendando ao governo Bush uma imediata reaproximação com a América Latina para evitar o perigo do avanço das esquerdas no continente. Além de atacar Hugo Chávez, "por seu pequeno respeito à democracia", o grupo sugere maiores investimentos ianques no Brasil e México para evitar a "esquerdização" da região.

Como observa Marco Aurélio Weisseheimer, "a campanha eleitoral de 2006 está levando o ex-presidente a tentar uma articulação internacional baseada em uma maior aproximação com os EUA e na crítica a ‘esquerdização’ da América Latina, particularmente em relação ao governo Chávez, apontado como fator de instabilidade política para a região. A parceria com a ex-representante comercial dos EUA, Carla Hills, é um claro indício da direção desse movimento". Diante desses fatos, somente os cegos, os sectários e os ingênuos não enxergam os reais interesses dos "éticos" do PSDB e PFL, ativos militantes entreguistas.

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