10 de jun de 2009

Literatura - Balzac

"Sujar papel: é o único meio de que disponho - conquanto ignominioso - para me tornar independente."

H. Balzac à sua irmã Laure, 1821

Balzac: o Escritor-Fábrica

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H. Balzac (1799-1850)

Honoré Balzac, morto há cento e cinqüenta anos, foi um dos mais extraordinários e completos escritores de todos os tempos. Até os nossos dias qualquer um se impressiona com a vastidão e diversidade da sua obra, que, na tradução para o português, feita no Brasil dos anos 50 e 60, chegou a 17 volumes. Quem abrir qualquer um dos livros da Comédia Humana terá um mundo inteiro diante de si.

A Iniciação de um Romancista

Em Paris, nos primeiros anos da década de 1820, a sombra de homem esgueirava-se na noite alta entre o Boulevard du Pontaux-Choux e a rua Beaumarchais. Seguia desta vez os passos de um trabalhador e sua mulher. Escutava-lhes o patoá, observava-lhes os sapatos rotos, o caminhar desengonçado, sentia-lhes as privações e intuía quais seriam seus desejos. Acompanhava-os a distância, discreto como um bom fantasma, até que o casal sumia numa ruela qualquer.


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A Vendôme, um dos Olimpos de Paris

Mais tarde ainda, se o clarão da Lua permitisse, tratava de alcançar o cemitério Père Lachaise, onde perambulava horas entre as tumbas daqueles mortos ilustres. Olhava para as lápides buscando inspiração. Talvez aquelas eminências do passado, abrigadas nas tumbas, indicassem-lhe mediunicamente qual o melhor caminho para atingir o coração frio daquela bela cidade, que se esparramava lá embaixo como que a seus pés. Da parte mais elevada do famoso mortuário, contemplava, ao longe, iluminadas, a Coluna de Vendôme (aquele pilar de bronze erguido por Napoleão com os canhões de Austerltiz) e a Abóbada dos Inválidos. Naquele eixo formado por aqueles dois grandes monumentos concentrava-se o tout Paris, era dali que os deuses da glória determinavam quem eles deveriam abençoar.

Balzac se profissionaliza


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Caminhadas no cemitério (Père Lachaise)

Dando vida e corpo a essa sombra que vagava pelas ruas e cemitério de Paris do princípio do século XIX, veríamos que ele não alcançava mais de um metro e meio, era feio, com dentes horrivelmente estragados, pouco asseado e muito mal vestido. Recentemente tomara a difícil e audaciosa decisão de tornar-se um escritor profissional. O seu nome era Honoré Balzac, que, com pouco mais de vinte anos, assumira a firme determinação de "fazer com a pena o que Napoleão fizera com a espada". As estranhas caminhadas, o contato com a gente comum e o cenário bizarro, faziam parte das emanações que esperava receber para compor os personagens dos livros que pretendia escrever. Balzac inovou no seu tempo ao empresariar a si mesmo, envolvendo-se em várias iniciativas como impressor e até com notável previsão, promovendo o livro de bolso como um solução para a popularização da literatura. Nunca teve, porém, sucesso em seus saltos para além do mundo das letras. Ao contrário, só acumulou decepções e dívidas, obrigando-o a se tornar num exímio contorcionista para esgueirar-se dos credores (inclusive deixou um verdadeiro manual ensinando como escapar deles).

Do Terra

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