19 de abr de 2010

Bullying nas escolas


Allan Beane
"As escolas fecham os olhos ao bullying"
Um dos maiores especialistas em violência entre estudantes diz que a omissão dos educadores é fator decisivo para o aumento de casos
Claudia Jordão
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Quem pensa que o universo infantil é povoado exclusivamente de inocência, ingenuidade e ausência de maldade sente um baque cada vez que notícias sobre bullying – quando crianças agridem verbalmente, fisicamente e psicologicamente seus colegas – são divulgadas. Nessas últimas semanas, os casos se intensificaram. Em março, a princesa Aiko, filha de 8 anos do herdeiro do trono no Japão, o príncipe Naruhito, faltou seis dias na escola por causa de dores de estômago e ansiedade depois de ser zombada pelos coleguinhas. Semanas depois, nove adolescentes foram indiciados após o suicídio de uma garota de 15 anos supostamente motivado por bullying nos Estados Unidos. E, desde o início de abril, o País de Gales investiga 23 crianças em caso de agressões e abusos sexuais contra uma colega de classe. Detalhe: algozes e vítima têm apenas 6 anos. Isso para ficar nos casos que ganharam os holofotes.

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"Quando a criança conta aos pais que está sofrendo bullying,
geralmente já é assediada há muito tempo"
No Brasil, situações de violência entre alunos acontecem diariamente. Referência mundial no assunto, com sete livros publicados, além de 36 anos de experiência como educador da Murray State University (Kentucky, EUA), o americano Allan Beane, 60 anos, afirma que o bullying sempre existiu, mas nunca foi tão frequente e cruel. Com a demanda, ele presta consultoria em quatro investigações criminais e cinco ações judiciais – além de dar palestras sobre o tema e de ter desenvolvido um método anti-bullying para escolas. Beane, que acaba de lançar no Brasil o livro “Proteja Seu Filho do Bullying”, fala com um triste conhecimento de causa. Ele perdeu o filho há dez anos por consequências indiretas da violência praticada nas escolas.

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"A existência de um “melhor amigo” reduz drasticamente
a duração e o sofrimento da vítima do bullying"

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Istoé -
Hoje em dia acontecem mais casos de bullying do que anos atrás?
Allan Beane -
Allan Sim, eles têm acontecido com mais frequência e numa intensidade cada vez maior. Aos poucos, as pessoas estão percebendo que o bullying rouba a infância das suas vítimas. Quando são alvo de tamanha crueldade por parte dos colegas, as crianças podem desenvolver distúrbios alimentares, ansiedade, stress pós-traumático, fobia escolar e, muitas vezes, se machucam ou se suicidam.
Istoé -
O bullying pode levar ao suicídio?
Allan Beane -
Dados apontam que 30% dos suicídios entre jovens são causados pelo bullying. Mas acredito que esse número seja maior. Só eu já conheci 19 jovens que sofreram bullying e tentaram se matar. Meu filho morreu há dez anos e, de lá para cá, o caso mais chocante que soube foi o de uma garota que se enforcou no armário de seu quarto. Mas, independentemente do grau de gravidade, me choco sempre que ouço relatos de agressões da boca das próprias crianças e vejo lágrimas rolarem de seus rostos. E elas vão continuar a adoecer, se matar ou matar seus pares se nós, adultos, permitirmos que isso continue.
Istoé -
Por que está havendo esse aumento de ocorrências?
Allan Beane -
Há uma série de razões que contribuem para que uma criança se torne cruel. Os pais adotam hoje ou uma postura permissiva demais ou agressiva em demasia. Portanto, há cada vez mais filhos carentes de autocontrole. Além disso, os adultos têm se esquecido de ensinar uma regra de ouro: “Trate o outro da maneira que gostaria de ser tratado. ”As crianças estão apáticas e insensíveis. Às vezes, por exemplo, têm permissão para maltratar animais – e se são impiedosas com os animais tendem a ser impiedosas também com as pessoas. Há ainda a questão da sociedade, cada vez mais violenta. As novas gerações parecem ser insensíveis à violência, de tão acostumadas que estão a ela.
Istoé -
Como acontece o bullying?
Allan Beane -
O bullying é uma forma de comportamento agressivo, que é intencional, doloroso (física, emocional e psicologicamente) e persistente. Ou seja, geralmente, acontece repetidamente. A vítima pode ser agredida fisicamente, com socos, tapas, empurrões. Também pode ter seus pertences destruídos ou roubados. Pouca gente sabe, mas é muito comum que crianças forcem a cabeça de colegas para dentro do vaso sanitário e deem descarga, por exemplo. Além disso, há o cyberbullying, no qual a tecnologia é usada para a propagação da violência. Nesse caso, a criança é agredida e um vídeo com a cena de violência é postado na web.
Istoé -
E como identificar se uma criança está sofrendo o bullying?
Allan Beane -
A vítima do bullying costuma ter um repentino desinteresse pelos estudos. Seu aproveitamento escolar diminui e isso aparece nas notas. Ela parece feliz nos finais de semana e infeliz durante a semana. Prefere a companhia de adultos e passa a reclamar de dor de cabeça e de barriga, por exemplo. Algumas apresentam insônia ou pesadelos. Voltam para a casa machucadas ou com os pertences destruídos. Ao menor sinal, os pais devem intervir. Quando a criança conta o que está sofrendo, geralmente, já é assediada há muito tempo.
Istoé -
Qual é o perfil da criança que sofre bullying?
Allan Beane -
Crianças malvestidas, com roupas sujas, de tamanhos maiores ou menores, atraentes ou não, acima do peso, abaixo do peso, negras, com orelhas de abano, nariz grande. Tudo é motivo para ataque, desde que a criança agredida “entre no jogo”, demonstrando medo. A vítima também costuma ser sensível, tímida e com dificuldades de relacionamento. 
Istoé -
E a descrição da criança que pratica?
Allan Beane -
São aquelas que gostam do poder e de ter controle sobre a situação. Amam ganhar e odeiam perder – isso é perceptível em jogos e brincadeiras. Ficam excitadas quando outras pessoas discutem e costumam estimular disputas. Têm sangue-frio durante as brigas e não sentem remorso depois delas. Desobedecem regras e costumam desafiar os adultos.
Istoé -
Em qual idade escolar costumam acontecer mais casos?
Allan Beane -
Nos Estados Unidos, entre o sexto e o oitavo ano (equivalente ao brasileiro no ensino fundamental). Mas pode começar já aos 3 anos de idade.
Istoé -
Meninos e meninas praticam e lidam com o bullying de maneira diferente?
Allan Beane -
Meninos e meninas agridem verbalmente – zombando, xingando, passando trote – e intimidam. Mas existem diferenças. Meninos tendem a agredir fisicamente com mais frequência. E as meninas costumam agir pelas costas, tecendo comentários depreciativos sobre seus colegas.  Além disso, elas disfarçam melhor – na frente de adultos parecem boazinhas.
Istoé -
Na tentativa de ajudar, muitos pais cujos filhos sofrem bullying procuram a criança agressora e os pais dela para uma conversa. É uma boa solução?
Allan Beane -
Essa estratégia só funciona quando o agressor tem pais conscientes, que se preocupam com a questão e se empenharão em resolvê-la. Infelizmente, nem sempre é assim. Tem pai que sente orgulho do filho valentão, que bate e xinga.
Istoé -
Como os pais devem agir então se o filho é vítima?
Allan Beane -
O melhor a fazer é conversar com a criança, ouvi-la, apoiá-la. Muitas vítimas do bullying acreditam merecer as agressões porque são gordas, negras, feias. Uma reunião com a direção, professores e monitores da escola é fundamental. Eles devem ter paciência, mas exigir ação. Além disso, precisam aconselhar o filho a evitar andar sozinho pela escola. Se estiver acompanhado de um grupo, a chance de sofrer bullying é menor. A existência de um “melhor amigo” reduz drasticamente a duração e o sofrimento do bullying. E, se possível, os pais devem prestar queixas formais.
Istoé -
No livro “Proteja Seu Filho do Bullying”, o sr. fala da importância de as crianças treinarem lutas marciais. Isso indica que elas devem revidar?
Allan Beane -
Geralmente, quem sofre bullying é menor e mais vulnerável psicologicamente que seus pares. Algumas vítimas também têm baixa autoestima. Quem pratica o bullying as escolhe porque pode machucá-las e controlá-las. A atividade física torna a criança mais forte e contribui para aumentar sua confiança. Por outro lado, desencorajamos as artes marciais quando não são promovidos a paz, o autorrespeito e o respeito ao próximo. Crianças não devem responder ao bullying de forma agressiva porque, geralmente, torna o revide mais rápido e mais violento. A ideia é prevenir para que ela não seja agredida e fazer com que ela lide melhor com as questões que envolvem o tema.
Istoé -
O que fazer quando o próprio filho é o agressor?
Allan Beane -
Esse é um assunto delicado, pois, muitas vezes, as crianças reproduzem o que vivem em suas próprias casas, o que vem a ser um importante desencadeador para a agressividade. Nesses casos, os pais não querem fazer nada, pois não reprovam a atitude de seus filhos. Mas, ao mesmo tempo, também há bons pais com filhos praticando bullying. Aí é preciso conversar e tentar entender o porquê desse comportamento da criança. Também é preciso fazer uma reflexão sobre como se está educando. Algumas vezes, é necessário ajuda profissional.
Istoé -
Como explicar a passividade de alguns educadores diante dos casos de violência dentro das próprias escolas?
Allan Beane -
As escolas fecham os olhos ao bullying. Às vezes, os educadores sabem o que acontece e ignoram. Ou dizem que aquilo não existe nas suas escolas. Acho que as instituições de ensino deveriam intensificar a supervisão. Ou estabelecer programas anti-bullying. Só não há desculpa para não agir.
Istoé -
Pessoas que praticam bullying na infância são assediadoras na vida adulta?
Allan Beane -
Crianças que machucam crianças tendem a virar adultos que machucam adultos. É muito difícil transformar uma criança agressiva num adulto tranquilo. Ela pode crescer e agredir seus filhos e animais.
Istoé -
Como se interessou em estudar a prevenção do bullying?
Allan Beane -

Meu filho Curtis sofreu bullying no sétimo ano e no colegial. Na primeira vez, o mudei de escola. Quando estava começando a se adaptar, sofreu um acidente de carro. Eu e minha esposa tivemos de autorizar a remoção de dois dedos e um terço de sua mão direita. Ele tinha 15 anos e aquilo mudou a sua vida. Quando voltou para a escola, muitos colegas o apoiaram e o incentivaram. Infelizmente, muitos foram cruéis. O bullying contribuiu para sua depressão e ansiedade e sua necessidade de partir para as drogas. Ele tinha um problema no coração, que não sabíamos, teve uma parada cardíaca e morreu. Ele não se matou. Ele tinha as chaves do seu carro na mão, ia  procurar ajuda.
 
Istoé -
Depois de estudar tanto o tema, acredita que seria capaz de livrar seu filho do bullying, caso estivesse vivo e sofresse com isso hoje?
Allan Beane -
Sem dúvida. Desde a morte do meu filho, meu projeto de vida, e da minha mulher, é levar luz à escuridão que é a vida de crianças que sofrem diariamente o bullying.

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