14 de nov de 2011

Para combater o crack "os adultos precisam de apoio para ajudar no desenvolvimento do menor"

Amizade (e diálogo), entre adultos e crianças e/ou adolescentes, é fundamental

Adultos responsabilizam a instituição educacional e o governo, abandonam a educação de seus filhos, transferem a educação dos menores totalmente para alheios, deixando que a escola entre outros cuidem daquilo que poderiam apoiar e acompanhar - muitos adultos são ausentes. A criança e o adolescente sentem esta falta, e buscam fora de casa aquilo que ele não tem - atenção.

Os menores são seduzidos com mais facilidade pelo traficante, se entorpecem com alguma substância afim de se libertar desta falta de amor, compreensão, diálogo, da ausência dos adultos cuidadores. Muitos responsáveis por estes menores não tiveram condições de aprender a educar crianças e adolescentes, porque também não tiveram chance, sofreram em sua infância e adolescencia, às vezes transferem para o menor esta ausência.

    "A família, uma das três fontes de socialização primária, ao construir vínculos saudáveis, comunica normas sociais salutares para os seus membros. Mas, famílias disfuncionais podem transmitir normas desviantes através do modelo de comportamento dos pais para os filhos. Os problemas de vinculação familiar advêm, em sua maioria, daqueles lares onde faltam habilidades para a criação dos filhos, reduzindo as chances de transmissão efetiva de normas sociais saudáveis. "  - (*)  Mirian Schenker 1; Maria Cecília de Souza Minayo 2


Seria interessante o governo lançar um projeto de inserção social da família com a criança e o adolescente na escola e na sociedade, os adultos precisam de apoio para ajudar no desenvolvimento do menor. As chances de perdas destes adolescentes na criminalidade ou no mundo dos vícios reduziriam bastante. Este projeto deveria ter o apoio do Ministério da Sáude e da Educação, envolver o trabalho de assistência social com estas famílias.

A estrutura do menor começa na família, quando este foi criança e adolescente.

Márcia Brasil (twitter @serbrasileira )

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A implicação da família no uso abusivo de drogas


Laqueille e colaboradores (1995) definem como dependentes os comportamentos dos drogadictos, pois eles são movidos pelo desejo poderoso, compulsivo de utilizar uma substância psicoativa, procura que invade, progressivamente, toda a sua existência. Consideram a dependência uma patologia que tende a se tornar crônica, porque o adicto é ambivalente com relação à abstinência, nega a importância de sua dependência, recusa-se a admitir a gravidade da situação ao evitar suas angústias com o uso crescente das drogas, recorrendo, tardiamente, a cuidados especializados.

A idéia de que a dependência do adicto é uma patologia encaixa-se numa visão corrente do adicto como doente, em que se enfatiza mais a substância psicoativa do que a relação que o sujeito estabelece com a droga, em contextos múltiplos de relações – família, amigos, comunidade –, num determinado espaço sociocultural. As pesquisas descritas por Hoffmann & Ceboneb (2002) mostram que os distúrbios no uso de drogas psicoativas estão associados ao uso de drogas pelos adolescentes com baixa auto-estima, sintomas depressivos, eventos de vida estressantes, baixa coesão familiar e ligação com amigos que consomem drogas.

Liddle e Dakof (1995b) chamam a atenção para a questão dos distúrbios provocados pelo uso abusivo de drogas serem uma ameaça à saúde pública, trazendo ônus considerável ao adicto e à sua família, pois comumente a adicção leva a perdas de empregos, rupturas familiares, instabilidade financeira e abuso físico e psicológico. A comunidade também é onerada, porque há vítimas de crimes e acidentes relacionados com as drogas, bem como altos custos de encarceramento, no caso de substâncias ilegais, e tratamento.

As normas para os comportamentos sociais (Oetting & Donnermeyer, 1998), incluindo-se aí o uso de drogas, são aprendidas predominantemente no contexto das interações com as fontes primárias de socialização que, na sociedade ocidental, são a família, a escola, e os amigos na adolescência. Cada uma das conexões das fontes primárias com o jovem envolve um vínculo que provê um canal para a comunicação de normas. Vínculos frágeis entre o jovem e essas fontes são fatores de risco para a instalação de desvios. Vínculos e ajustes saudáveis com a família e com a escola previnem a associação do jovem com as ditas "más companhias" na adolescência. Essas três fontes funcionam, para o jovem, como mediadoras das outras influências sociais vistas como secundárias: a religião, a mídia e a comunidade.

A família tem um papel importante na criação de condições relacionadas tanto ao uso abusivo de drogas pelo adolescente quanto aos fatores de proteção, funcionando igualmente como antídoto, quando o uso de drogas já estiver instalado (Liddle & Dakof, 1995a). Uma vez que a família é um dos elos mais fortes dessa cadeia multifacetada que forma o uso abusivo de drogas instaurado na adolescência, muitas abordagens terapêuticas são "baseadas na família" e abrangem os fatores intrafamiliares, intra-individuais e socioculturais, de forma sistêmica.

Stanton & Shadish (1997) referem-se a pesquisas que reforçam a idéia de que é preciso atingir as famílias e trabalhar os vínculos entre seus membros, nos casos dos indivíduos adictos que querem sair dessa situação: da amostra pesquisada, de 60% a 80% moravam com os pais ou falavam diariamente pelo menos com um deles; e de 80 a 95% comunicavam-se com a família toda semana. Esse fenômeno foi reportado para os EUA, Porto Rico, Inglaterra, Itália e Tailândia. Portanto, o tratamento do adicto irá se beneficiar da inclusão do sistema familiar no trabalho dos vínculos familiares, uma vez que os resultados das pesquisas desvelam a ligação estreita entre o adicto e seus familiares. Considera-se que tratar do dependente implica incluir o sistema familiar para trabalhar os vínculos familiares.

Em relação ao universo familiar, diferentes autores, dentre os quais Stanton & Shadish (1997), chegaram a algumas conclusões convergentes: a) uma série de fatores familiares tem relação com o processo adictivo; b) o início do abuso de drogas e de overdoses pode ser precipitado pelo rompimento familiar, estresse e perdas; c) o modelo dos pais no que se refere ao uso de drogas e álcool é importante; d) o abuso de drogas pode auxiliar a manutenção da homeostase familiar ou pode servir como uma forma de mobilizar os pais do adicto para tratamento; e) outros membros da família podem "facilitar" comportamentos que perpetuem o abuso de substância por umos seu dos membros.

A família, uma das três fontes de socialização primária, ao construir vínculos saudáveis, comunica normas sociais salutares para os seus membros. Mas, famílias disfuncionais podem transmitir normas desviantes através do modelo de comportamento dos pais para os filhos. Os problemas de vinculação familiar advêm, em sua maioria, daqueles lares onde faltam habilidades para a criação dos filhos, reduzindo as chances de transmissão efetiva de normas sociais saudáveis.

O estilo de criação dos pais (Liddle et al., 1998) é entendido como o clima emocional em que ocorre a socialização, uma vez que atos educativos específicos só terão eficácia no contexto de uma relação emocional apropriada. O estilo de criação refere-se às atitudes dos pais com relação aos filhos em situações diversas, podendo ocorrer sob a forma de três tipos de controle: autoritarismo, "com autoridade" (authoritative) e permissivo. O estilo de controle "com autoridade", que incorpora cordialidade e vigilância, está associado a uma adaptação positiva em diversas áreas de funcionamento dos pais e adolescentes ao longo do desenvolvimento. Trata-se de um estilo de criação que inicia o indivíduo num sistema de reciprocidade, correlacionando-se de forma positiva com uma série de atitudes e comportamentos adolescentes incluindo-se o desempenho e o engajamento escolar.

No autoritarismo, os pais são autocráticos, muito exigentes e pouco responsivos ao seu adolescente, que, por sua vez, mostra-se obediente às regras, porém com baixa autoconfiança. No estilo permissivo, os pais podem ser indulgentes ou negligentes. No primeiro caso, há maior probabilidade de uso de drogas e desengajamento escolar; no segundo, em que falta aos pais tanto correspondência quanto exigência com relação aos filhos, estes apresentam problemas em várias áreas de funcionamento desde o autoconceito até a competência.

A gama de comportamentos dos pais que define a prática de criação dos adolescentes subdivide-se em categorias de monitoramento e supervisão; controle, consistência/coerência e rigor de disciplina; apoio e comunicação. Os adolescentes buscam naturalmente a sua independência em relação aos pais com o intuito de controlar e decidir acerca de sua vida. Os pais freqüentemente confundem essa atitude com rebelião, pois os filhos tendem, nessa etapa da vida, a questionar os seus valores e opiniões.

Os amigos preenchem o vácuo do progressivo desprendimento da tutela dos pais e são tratados, pelos jovens, como se fossem os primeiros em importância na sua vida. Compreender esses aspectos é fundamental para a transição saudável do adolescente, podendo ser negociados, com sucesso, numa relação estruturada no afeto e apoio mútuo entre pais e filhos. É na ausência de cordialidade, encorajamento, monitoramento e colocação suficiente de limites que os adolescentes têm dificuldade em fazer a transição entre a confiança primeira colocada nos pais para uma maior independência e foco cada vez maior nos amigos (Liddle et al., 1998).

Ou seja, também os amigos e colegas de escola formam grupos de intimidade, influenciando, de forma marcante, a transmissão de normas na fase da adolescência. Por disporem de laços fortes e monitorarem, diretamente, atitudes e comportamentos de seus membros têm um papel muito importante nessa etapa da vida. Vários autores (Oetting & Donnermeyer, 1998) têm encontrado forte ligação entre o uso de droga dos pares e o uso de droga pelo adolescente, porém, as investigações também evidenciam que os adolescentes não são cooptados por amigos anti-sociais, mas eles se tornam atraentes pelo fato de o meio familiar apresentar abundância de conflitos e desengajamento interpessoal. Nesses casos, em geral, os pais não implementam práticas efetivas de educação que equilibram afeto, atenção e limites para os filhos.

O estudo de Hogue&Liddle (1999) focaliza os problemas comportamentais destrutivos da criança e do adolescente – especificamente agressão, desordem de conduta, uso de drogas, delinqüência e violência – como preocupações significativas que comprometem o desenvolvimento saudável e colocam o jovem em risco.

O estudo de Schmidt e colaboradores (1996) procurou saber se há relação entre a forma que o subsistema parental tem de criar os filhos em seus aspectos comportamentais, afetivos e cognitivos e o uso abusivo de drogas pelo adolescente. Essa prática foi dividida em oito categorias desenvolvidas a partir da literatura levando-se em conta: o apego, o estilo de vida familiar, relações, percepções sociais dos pais e observações de atitudes dos genitores por meio de sessões gravadas em videoteipe durante a terapia multidimensional de família (Multidimensional Family Therapy – MDFT). As categorias foram: 1) disciplina assertiva de poder; 2) disciplina e comunicação positiva; 3) monitoramento e colocação de limites positivos; 4) monitoramento e colocação de limites negativos; 5) inconsistência interparental; 6) afeto negativo e desengajamento; 7) afeto positivo e compromisso; 8) inflexibilidade cognitiva (Schmidt et al. 1996). Já o estilo de criação foi classificado como "com autoridade", autoritarismo e conflituado-desengajado.

Schmidt e colaboradores (1996) analisaram o uso de drogas pelo adolescente através de relatório pessoal e análise de urina. Os referidos autores observaram 16 sessões de terapia de família pelo método multidimensional (MDFT). Mais de dois terços dos pais melhoraram a forma de criar seus filhos e essa forma foi significativa para mudanças no comportamento do adolescente.

O estudo de Schmidt e colaboradores corrobora a premissa de Oetting e Donnermeyer (1998) e de Alexander e Gwyther (1995), que também descrevem a família em seu papel de decodificação central dos processos sociais para os seus membros, evidenciando-se que o uso indevido de drogas passará pelo filtro da família.

Dakof e colaboradores (2001), numa pesquisa sobre o pré-tratamento, buscaram identificar fatores demográficos dos pais e dos adolescentes que influenciariam o engajamento dos jovens na terapêutica para o abuso de drogas. Duzentos e vinte e dois adolescentes de famílias urbanas participaram da pesquisa em que a maconha era a droga de eleição. Os resultados mostraram que o engajamento no tratamento se relacionou, em ordem de importância, com as expectativas parentais positivas com relação à realização educacional de seus adolescentes; a observação acurada nos relatórios dos pais sobre o sintoma externo do jovem (comportamento delinqüente e agressivo); e os maiores níveis de conflito familiar percebido pelos jovens. Isso lhes propiciou o forte argumento de que os adolescentes, filhos de pais que apresentaram a combinação de reconhecimento de problemas e a crença que seu filho pode ultrapassá-los através da realização na escola, engajaram-se no tratamento. As variáveis: renda familiar, sexo, status de grupo minoritário, status na justiça juvenil, estrutura familiar, idade da mãe, psicopatologia e características do tratamento não distinguiram o engajamento ou não do adolescente no tratamento. Os resultados sugerem que as percepções dos pais sobre os adolescentes são primordiais.

O monitoramento e a supervisão dos pais em relação aos filhos são sinais das expectativas que têm de que se cumpram as normas familiares, protegendo-os de se associarem a pares desviantes, reduzindo, assim, a chance do uso de drogas (Oetting & Donnermeyer, 1998). A família, como já se mencionou, é a fonte primeira da maioria das crenças e comportamentos relativos à saúde, transmitidos às crianças e aos adolescentes. O estudo de Hogue e Liddle (1999) fornece subsídios para se pensar a terapia de família com crianças como instrumento de prevenção de problemas futuros.

Alexander e Gwyther (1995) entendem o uso abusivo de drogas como desordem biopsicossocial séria e complexa que gera problemas sistêmicos em níveis variados, passando da célula para a família, a escola, o trabalho e a sociedade. Por considerarem que o melhor tratamento deverá envolver o adolescente e sua família, os autores utilizam uma abordagem focalizada na família para a avaliação e administração de problemas referentes ao abuso de drogas. Ver a criança ou o adolescente como parte e não à parte do sistema familiar é um passo fundamental. O abuso de drogas tende a incluir outros membros da família e sabe-se que a adicção, por um dos pais, afeta todos os membros do grupo, podendo ser mais bem avaliado dentro do contexto familiar.

O modelo utilizado por esses autores é semelhante ao Modelo de socialização primária de Oetting & Donnermeyer (1998), porque, também para eles, as atitudes concernentes à drogadicção ou ao não envolvimento com elas são socialmente aprendidas, e é no seio da família que ocorrem as primeiras aprendizagens. Além disto, a família é o canal através do qual influências fundamentais se fazem notar pelo adolescente. Portanto, no caso de qualquer um do núcleo familiar fazer uso abusivo de drogas, recomenda-se que a família busque tratamento para que possa lidar com o impacto deste comportamento em seu funcionamento, tornando explícitos os mecanismos inconscientes desse processo autodestrutivo.

Em resumo, as abordagens que envolvem a unidade familiar nos problemas relativos ao de tratamento por uso abusivo de drogas são consideradas mais efetivas do que as abordagens de tratamento individual (Alexander & Gwyther, 1995). O tratamento da família no caso de comportamentos anti-sociais na infância possui ampla base de suporte empírico (Hogue e Liddle, 1999). Na psicoterapia de crianças, o treinamento dos pais, através dos princípios de reforço do comportamento, inclui ensinamentos para a utilização tanto de disciplina quanto de comunicação de forma consistente. Hoje, os diferentes tipos de tratamentos de família estão equipados para lidar com problemas reconhecidos como previsíveis do comportamento anti-social: monitoramento parental frouxo; vínculo e ligação pais-criança pobres; e hostilidade e conflito nesta relação.

Sabe-se, por experiência e através de pesquisas (Liddle et al., 1998), que os pais continuam influenciando seus filhos adolescentes ainda que, nesta fase, o grupo de amigos se torne muito importante. O conflito intenso entre pais e adolescentes, além de não ser a norma, dificulta o desenvolvimento da identidade desse ser em formação. A transição positiva para a adolescência se faz através da negociação de mudanças nas relações entre pais e filhos, em busca da autonomia. Quando isto não acontece, o adolescente poderá se distanciar dos pais de forma hostil para conseguir manter o controle sobre sua independência. Desta forma, um dos principais objetivos das intervenções baseadas na família com adolescentes envolvidos com uso abusivo de drogas deve ser o da reconstrução do vínculo emocional dos pais em relação ao jovem, de forma a atender às necessidades de ambos.

As estratégias de tratamento para o comportamento anti-social são as abordagens ecológicas, que lidam com contextos sociais múltiplos – família, amigos, escola, comunidade e sistema legal –, vistos como influenciando e sendo influenciados por tal comportamento. Tendo em vista que a família é a conexão dessas esferas sociais que se entrecruzam nas vidas das crianças e dos adolescentes (Hogue e Liddle, 1999), as terapias de família aparecem como possibilidade para o tratamento de problemas de abuso de drogas (Stanton & Shadish, 1997) e de transtornos de comportamento.

Para Liddle e Dakof (1995b) existe uma distinção entre terapia de família e intervenções que envolvem a família. A primeira estabelece uma conexão entre as relações familiares e a formação e o uso contínuo do abuso às drogas. As segundas são vistas como mais uma das áreas de intervenção e, além disto, envolvem a família somente em diferentes formas de auxílio ou de provisão de informação.

Há uma variação na perspectiva baseada na família (Liddle & Dakof, 1995a) que vai desde modelos com raízes comportamentais (behavioristas), passando pela terapia funcional da família advinda da teoria da aprendizagem social, até a terapia de família estrutural. Outra abordagem é a dos modelos integradores multissistêmicos e multidimensionais, cujo foco é a ecologia do adolescente que faz uso abusivo de drogas, avaliando e intervindo na sua rede de influências – família, cultura de amigos, escola e sistema de justiça juvenil. Cada uma dessas partes é considerada um holon, tanto uma parte como o todo. Os indivíduos são considerados organismos biopsicossociais bem como membros de outros sistemas como família, trabalho, grupos de amizade, comunidade, grupos étnicos. Seria um pensamento ou uma intervenção reducionista se somente uma dessas perspectivas fosse utilizada em detrimento das outras (Liddle, 1999).

Conclusão
As questões relativas ao uso abusivo de drogas pelo adolescente e a co-participação da família levantadas no presente artigo estão em consonância com a minha prática clínica como terapeuta de famílias adictas.
Observa-se que os pais, ou figuras substitutas, têm dificuldade em passar normas e limites para seus filhos. Há pouca habilidade para criá-los e educá-los, advindo daí uma má qualidade de vínculos familiares. Em relação aos jovens isso se manifesta na falta de assertividade e na ambigüidade com relação às leis e normas. Observa-se primeiro na conduta da criança e, posteriormente, do adolescente, que os limites do que lhes é concedido estão esgarçados, havendo grande prejuízo para a sua formação e sérias conseqüências para a vida em família e em sociedade. As crianças e os adolescentes aceitam a autoridade dos pais – o estabelecimento de regras claras e coerentes e a imposição de limites – quando há uma relação de confiança e afeto entre eles.
Percebe-se que as famílias adictas buscam "terceirizar" suas responsabilidades com relação a seus filhos. Cultivam um tipo de comportamento irresponsável, como se o dever de monitorar e supervisionar o comportamento dos adolescentes fosse algo mecânico, robótico, sem a necessidade de construção prévia da relação de confiança. Quanto mais a família é "desengajada" (Minuchin, 1974) nas suas relações interpessoais maior risco seus filhos correm de desenvolver comportamentos anti-sociais.
Premissas contemporâneas do paradigma sistêmico (Grandesso, 2000) indicam que as relações entre os indivíduos são co-construídas, processo que os tornam co-responsáveis pela criação, desenvolvimento e qualidade dessa relação. Crescer, passar de uma etapa do ciclo vital da família para a seguinte, implica negociações que resultam em modificações nas relações previamente estabelecidas. Famílias disfuncionais geralmente têm pais ainda imaturos na forma de relacionar-se com os filhos. Inúmeras vezes, os pais são mais adolescentes que os filhos, pois se apresentam como amigos – peers – e não se posicionam como educadores, figuras de autoridade, de confiança e de respeito para os adolescentes.
É verdade também que a família passa os seus valores e as suas crenças através das gerações, sendo a fonte primeira de acolhimento para os seus membros. Pelo fato de ser co-responsável pela formação dos indivíduos, a família está diretamente implicada no desenvolvimento saudável ou adoecido de seus membros.
É importante ressaltar que todas as intervenções baseadas na família (Schmidt et al., 1996) partem do princípio de que a mudança no indivíduo de um uso abusivo de drogas para a diminuição deste abuso, agregado a um funcionamento socialmente saudável, resulta da mudança no sistema familiar. A forma de criar os filhos é fundamental na constituição do indivíduo desde a infância até a adolescência. As práticas de criação características do meio familiar de adolescentes que apresentam desordens de conduta e abuso de substância são: administração insatisfatória da família, criação omissa, disciplina e monitoramento parental inadequados, irritabilidade dos pais, processos familiares coercitivos. Por outro lado, dado o papel do meio familiar em proteger a criança de fatores de risco e a contribuição central da criação dos pais neste sentido, são dignas de nota as mudanças que hoje ocorrem na cultura dessa instituição de raiz, seja em relação à vida a dois, e também aos diferentes arranjos que influenciam a convivência, os hábitos e costumes.
O pensamento sistêmico-ecológico, diversamente daquele que privilegia a dinâmica do indivíduo, focaliza no contexto das relações as questões vividas pelo ser humano, entendendo que todos os fenômenos se inter-relacionam, com maior ou menor intensidade, na teia que conforma a sua existência. Por isso, o comportamento do adolescente que faz uso abusivo de drogas é entendido no seu contexto de influências, no meio sociocultural em que estiver vivendo.
A terapia de família, então, passa a ser uma indicação permanente. Os tratamentos que envolvem a ecologia do jovem que usa droga de forma abusiva abrangem ainda melhor a complexidade do fenômeno da adicção em nossos dias. O diálogo intercontextual fornece a riqueza de condições de possibilidade para a co-construção de um contexto saudável para o adolescente.

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Fonte: Ciência e saúde coletiva  - Scielo (traduzido)

Original: The family implication on the drug abusive use: a critical review

(*)Miriam SchenkerI; Maria Cecília de Souza MinayoII

I Doutora: Núcleo de Estudos e Pesquisa em Atenção ao Uso de Drogas/Uerj, Pós-Graduação em Saúde da Criança e da Mulher do Instituto Fernandes Figueira/Fiocruz. Av. Rui Barbosa, 716. 22250-020 Flamengo Rio de Janeiro RJ
II  Doutora: Centro Latino-Americano de Estudos da Violência, Fiocruz


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