17 de fev. de 2012

Mais dois jornalistas assassinados

Por Pedro Pomar

Mario Randolfo Marques Lopes, de 50 anos, e Paulo Roberto Cardoso Rodrigues, de 51 anos, provavelmente não chegaram a se conhecer, embora tivessem a mesma profissão e quase a mesma idade. Mario trabalhava na região conhecida como Sul Fluminense (RJ). Paulo Roberto atuava na região de Dourados e Ponta Porã (MS). Ambos eram jornalistas.  Ambos foram assassinados a tiros: Mario, no dia 9; Paulo Roberto, no dia 13.


A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) cumpriu seu papel, repudiando os assassinatos e cobrando “imediata e profunda investigação das autoridades competentes, com a conseqüente punição dos responsáveis”. A entidade afirma que exigirá do governo federal e do Congresso Nacional medidas urgentes para impedir a violência e a morte de jornalistas.

A Fenaj apoia o Projeto de Lei 1078/11, que propõe a federalização da apuração de crimes contra jornalistas. “Avançar para uma rápida tramitação e aprovação de tal proposta, diante dos dois recentes casos de violência contra profissionais de imprensa”, afirma a nota da Fenaj, “hoje se impõe não como um desejo corporativo, mas como uma necessidade premente de um país que realmente reconheça na liberdade de imprensa um pilar fundamental para o efetivo exercício da cidadania e da democracia”.

Obviamente, a Fenaj exerce o seu direito e, mais do que isso, cumpre o seu dever institucional de defender os jornalistas. É preciso dar garantias aos jornalistas e impedir que esses profissionais tornem-se alvos ambulantes de pessoas poderosas ou influentes contrariadas pela divulgação de determinados fatos. É preciso barrar a escalada de crimes contra jornalistas, e o mínimo que se pode esperar é a prisão e condenação dos seus autores, bem como providências do Ministério da Justiça.

Mario Randolfo e sua companheira, Maria Aparecida Guimarães, foram  sequestrados e executados em Barra do Piraí. Paulo Roberto, mais conhecido como Paulo Rocaro, sofreu um atentado em Ponta Porã e foi socorrido a tempo de relatar o fato à sua esposa pelo celular, mas não resistiu. Em ambos os casos há fartas evidências de que os crimes estão relacionados à atividade profissional de ambos.

Dito isto, cabe acrescentar que a nota da Fenaj poderia ter avançado na sua análise. Os crimes contra jornalistas apenas acentuam um cenário de profunda insegurança, em que lideranças dos movimentos sociais, camponeses, indígenas e até sindicalistas urbanos são assassinados com frequência assustadora. Sem falar na espiral nacional de violência que produz cerca de 50 mil homicídios anuais.

Persistem na sociedade brasileira fatores deletérios poderosos, como os interesses econômicos organizados em torno de atividades ilegais, como o trabalho escravo, a grilagem, a extração de madeira em áreas protegidas e várias outras. Caso o governo federal não se disponha a enfrentar esses interesses, não haverá Estatuto do Desarmamento capaz de brecar a onda de violência.

Reproduzo a seguir importante artigo da jornalista Karine Segatto, presidenta do Sindicato dos Jornalistas da Grande Dourados (filiado à Fenaj), sobre o assassinato de Paulo Rocaro.

Sinjorgran lamenta assassinato do jornalista Paulo Rocaro

Por Karine Segatto

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais da Grande Dourados (Sinjorgran) lamenta a morte do jornalista e escritor Paulo Roberto Cardoso Rodrigues (Paulo Rocaro), 51 anos, vítima de atentado na noite de 12 de fevereiro de 2012, em Ponta Porã (MS).

Mesmo que a motivação do crime ainda esteja sendo investigada pelos órgãos de segurança, a violência contra a pessoa pode estar relacionada a atividade profissional, tendo em vista que Rocaro foi presidente do Clube de Imprensa da cidade e era editor-chefe do Jornal da Praça e do site Mercosul News.

Trabalhava há 31 anos na área jornalística, sendo que entrou em 1985 no Jornal da Praça e criou o site Mercosul News há aproximadamente cinco anos. Em 8 de novembro de 2011, quando o jornalista Helton Costa perguntou, para a dissertação ainda em elaboração referente ao Mercosul News, sobre as dificuldades e as vantagens que Rocaro destacaria para se trabalhar com jornalismo na região de fronteira, ele respondeu por escrito:

“O jornalismo é uma profissão de risco na fronteira. Contudo, a violência contra profissionais de Imprensa é maior por parte de autoridades e marginais brasileiros do que paraguaios. Quando um profissional constrói mais de 30 anos de carreira numa região assim, como é o meu caso, está preparado para trabalhar em qualquer parte do mundo, por ter que aprender algumas regras que não se ensina nas universidades. Entre os livros que escrevi, há um (e até o final do ano será publicado outro na mesma linha), intitulado ‘A Tempestade’, que trata especificamente dos grupos de extermínio e ‘pistolagens’ aqui na região de fronteira. Nem com isso tive problemas. A segurança de um jornalista na fronteira Brasil-Paraguai está numa linha muito fina e frágil do trinômio razão-verdade-responsabilidade. Escrevendo sob este prisma, está seguro. Se deixar escapar algum destes requisitos, aí ninguém pode garantir segurança”.

Em outro registro de seu pronunciamento, na entrevista que concedeu em 2007 para a tese de conclusão de doutorado (2008) do professor da UFMS, Marcelo Vicente Cancio Soares, intitulada “Território televisivo: Estudo da televisão e do Telejornalismo na Fronteira do Brasil com o Paraguai”, Paulo Rocaro denunciou a violência contra jornalistas.

“A gente tem na região de fronteira muitos líderes, seja no submundo do crime, seja no setor empresarial, na política, cuja mentalidade ainda é do interior é do coronelismo, do emprego da força física, da coação moral, das perseguições políticas e os profissionais de imprensa estão sujeitos a tudo isso. Uma matéria que não é do agrado de um político, de um narcotraficante ou de um pistoleiro fatalmente o profissional de imprensa vai responder por aquilo. [...] Enquanto nos grandes centros você publica uma matéria e a pessoa afetada procura a justiça, move ações, aciona a empresa ou o profissional, aqui não tem isso. Aqui o camarada ofendido pergunta: quem fez esta matéria? Aí vai direto ao jornalista, seja para ameaçar, seja para pedir um reparo ou direito de resposta. A parte ofendida vai direto por causa da proximidade”.

A própria criação do Clube de Imprensa era apontada como uma das maneiras de os profissionais se organizarem para proteção mútua contra a coação. Em relatório divulgado ano pela Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), durante o ano de 2011, 106 trabalhadores de comunicação (seis brasileiros) foram assassinados ou morreram de forma violenta e em 2010 foram 94 mortos. Esperamos que a violência contra o jornalista Paulo Rocaro não se torne apenas um número na lista de 2012.


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