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17 de jan. de 2011

O drama da região serrana do Rio é de todos nós


É inadiável a definição e a implementação de políticas públicas que garantam o ordenamento urbano, com respeito às pessoas, ao meio ambiente, à coletividade, à vida. Claro que é trabalho para resultados a longo prazo. Mas é questão de sobrevivência humana.

Difícil manter a racionalidade diante da tragédia que atingiu a região serrana do Rio de Janeiro. As imagens são dilacerantes. A extensão do drama humano supera nossa capacidade de raciocínio. Impossível não se emocionar. Em particular ante a grandeza da gente brasileira, traduzida em solidariedade com as vítimas. E ao poder de resignação daqueles que escapam. Perderam tudo, mas estão vivos.

Muitos tiveram a família inteira levada pelas águas ou soterradas nos escombros do que um dia foi um lar. Ainda assim, mantêm aceso o espírito que dá sentido à vida: é preciso recomeçar.

De onde vem tamanha força? Talvez da fé. E quem somos nós, pretensos observadores, paladinos da consciência política, para duvidar? Sim, eles serão capazes e, talvez, seja extamente isso, a fé – que seja em si próprio – que alimente a mística do “brasileiro, profissão esperança”.

No tempo presente, resta-lhes contar e enterrar os mortos. E eles já passam dos 500 nas setes cidades devastadas, em três dias de resgate. Só em Nova Friburgo são 246, na contagem da tarde desta sexta-feira, segundo a Defesa Civil. Em Teresópolis, 229. Petrópolis, 41. Sumidouro, 20. São José do Rio Preto, dois. Areal também foi devastada, mas não há vítimas fatais conhecidas, por enquanto.

Mas, infelizmente, tudo pode ficar pior: as buscas certamente trarão mais corpos, e a meteorologia indica que os céus não darão trégua.

Outros estados do Sudeste vêm sendo castigados pelas chuvas: em Minas, 74 municípios estão sob as águas e decretaram estado de emergência; São Paulo não para de contabilizar prejuízos materiais e humanos; Espírito Santo e Goiás também sofrem com a força desvastadora das águas. Nada e em lugar nenhum, porém, se compara ao desastre no Estado do Rio. A diferença é que, desta vez, a catástrofe atinge pobres e ricos, indistintamente.

Ano após ano, verão após verão, a tragédia se repete neste pedaço do Brasil – em menor ou maior grau. Há dois anos, Santa Catarina, no Sul, sofreu devastação semelhante. O próprio estado fluminense é pródigo em exemplos: no reveillon do ano passado, Angra dos Reiscontabilizou 53 mortos nos deslizamentos de terra no Morro da Carioca e na Ilha do Bananal. As chuvas que fecham o verão levaram quase duas centenas de vidas nos deslizamentos no Morrodo Bumba, em Niterói, no início de abril de 2010; um lixão desativado há 50 anos torna-se abrigo de 200 famílias. O mesmo acontece com o Nordeste, no período de inverno.

Em junho do ano passado, as enchentes devastaram a Zona da Mata de Pernambuco e Alagoas, sobretudo. Os rastros da destruição permanecem ainda hoje. Cidades inteiras transformadas em lama e lixo. Dezenas de mortos, milhares de desabrigados. Prejuízos incalculáveis não se recuperam, assim, da noite para o dia. Para a morte, não tem retorno.

É fácil culpar as chuvas. Mas fato é que nenhuma cidade está preparada para a fúria da natureza, quando ela resolve cobrar a degradação cotidiana a que é submetida. E o agente de seu próprio infortúnio é o homem.
Tenha ele o nome que se lhe atribuir: especulação imobiliária; excesso de detritos gerado pelo consumo exarcerbado, irresponsabilidade ambiental; falta de habitação e de saneamento adequados, ausência de política urbana, leniência e descaso do poder público – tudo isso junto. Anos e anos, séculos a fio…

Choremos os nossos mortos. Lamentemos nossos prejuízos. Apontemos o dedo, também, para nós mesmos. Mas é leite derramado.

Catástrofe se previne. Por mais que existam problemas estruturais crônicos, e os há de grande monta. Por mais que as manifestações naturais possam vir a ser imponderáveis.

É inadiável a definição e a implementação de políticas públicas que garantam o ordenamento urbano, com respeito às pessoas, ao meio ambiente, à coletividade, à vida. Claro que é trabalho para resultados a longo prazo. Mas é questão de sobrevivência humana. Sim, porque o Planeta se fez, e se refez, em milhões e milhões de anos. Está em mutação permanente, e sobreviverá – com ou sem os humanos.

(*) A propósito, leia entrevista da arquiteta Ermínia Maricato à Caros Amigos a propósito do futuro das nossas cidades.

* Sulamita Esteliam é jornalista e escritoraa. Autora dos livros Estação Ferrugem, romance-reportagem que resgata a história da região operária de Belo Horizonte-Contagem, Vozes, 1998; Em Nome da Filha – A História de Mônica e Gercina, sobre violência contra mulher em Pernambuco; e o infantil Para que Serve Um Irmão, os dois últimos ainda inéditos. 
 
http://www.atalmineira.wordpress.com //sulamitaesteliam@hotmail.com
 
Por Sulamita - Carta Maior - 15.01.2011 

27 de jul. de 2009

H1N1 - Gripe suína: mãe da menina de 11 anos, de Osasco, acusa governo de São Paulo

Em abril, o secretário disse que São Paulo estava preparada para enfrentar a doença, mas o que quiseram fazer assim que houve a primeira vítima foi se eximir das responsabilidades, minimizar, e dar a entender que se tratava de uma fatalidade. Para eles, os pacientes que estão morrendo tinham outros problemas de saúde. A minha filha, eu posso afirmar que não.

Do Estadão

”Governo quis justificar negligência”

Nilce Paula Laguna: mãe da menina de 11 anos, primeira a morrer de gripe suína no Estado; Dona de casa diz que filha não tinha problemas de saúde e acusa secretário de Estado de mentir sobre o caso para encobrir erros

Luísa Alcalde, JORNAL DA TARDE

Nilce Paula Laguna, mãe da menina de 11 anos - a primeira a morrer em decorrência da gripe suína no Estado -, diz que a filha era saudável, nunca teve qualquer deficiência imunológica e nem contraiu hantavírus, como o governo estadual informou na ocasião. No início do mês, em menos de cinco horas, a garota morreu por septicemia (infecção generalizada), causada pela bactéria pneumococo, em Osasco.

A dona de casa também contesta declarações do Secretário Estadual da Saúde, Luiz Roberto Barradas, de que a criança não tinha apresentado inicialmente sintomas da nova gripe quando foi internada.

A assessoria de imprensa da Secretaria da Saúde informou que Barradas não havia relacionado a morte ao hantavírus e sim havia dito que “estava havendo uma investigação sobre essa hipótese e que se acreditava que ela poderia ter tido essa doença na infância”. Ainda segundo o governo, o secretário deu as informações com base no prontuário médico da menina.

A sua filha tinha a saúde debilitada por ter contraído o hantavírus quatro anos antes?

Ela era sadia. Nunca teve hantavírus. Tenho o exame do (instituto) Adolfo Lutz para comprovar. Não sei de onde o governo tirou isso. O secretário disse que essa deficiência no sistema imunológico justificaria a morte da minha filha, o que é um absurdo. Fiquei profundamente irritada quando ouvi isso porque sabia que era mentira. Mas naquele momento não podia reagir porque a minha família estava hospitalizada. O governo quis criar um problema para justificar a falta de preparo dos médicos em diagnosticar a doença e do próprio Estado. Em abril, o secretário disse que São Paulo estava preparada para enfrentar a doença, mas o que quiseram fazer assim que houve a primeira vítima foi se eximir das responsabilidades, minimizar, e dar a entender que se tratava de uma fatalidade. Para eles, os pacientes que estão morrendo tinham outros problemas de saúde. A minha filha, eu posso afirmar que não.

A senhora pretende tomar providências legais?

Eu ainda estou estudando essas possibilidades. Mas o secretário me ofendeu e falou mentiras sobre o estado de saúde dela. Atropelou a ética médica. Agora, o que quero é esclarecer que ela era sadia. Amiguinhas dela ainda me procuram perguntando que doença ela tinha que fez com que morresse.

Que sintomas ela tinha ao chegar ao hospital?

Também não é verdade o que o secretário disse sobre ela chegar ao hospital sem sintomas de gripe. No prontuário está escrito que ela apresentava dores no corpo, vômito. Eu, que sou leiga, não tinha obrigação de suspeitar dessa gripe, embora já tivesse ouvido falar. Mas os médicos, sim. E em nenhum momento eles cogitaram essa possibilidade. Sequer nos perguntaram se tínhamos viajado para fora do País ou se tínhamos tido contato com estrangeiros. É um direito meu desconfiar de negligência.

Por Nassif - 27.06.09